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Travessias Afro Comunitárias em Cenário de Covid-19

17/06/2020 14:00

Escola Livre de Redução de Danos

Travessias Afro Comunitárias em Cenário de Covid-19

O cenário de quarentena em tempos de pandemia com avanço do covid-19 tem reconfigurado à dinâmica de todos os cidadãos. Enquanto tem aqueles que conseguem...

     O cenário de quarentena em tempos de pandemia com avanço do covid-19 tem reconfigurado à dinâmica de todos os cidadãos. Enquanto tem aqueles que conseguem permanecer no isolamento social, realizando trabalhos home office. Há aqueles que para garantir seu alimento, precisa continuar indo aos locais trabalho, esses para além de ter sua saúde colocada em risco, tem ainda sua renda posta em risco com medidas de flexibilização das regras da Consolidação das Leis Trabalhistas. Existe uma parcela de estudantes que estão conseguindo o retorno ao ano letivo por meio das aulas virtuais. Entretanto, há uma parcela de alunos e alunas que não tem acesso à internet, pois dada a manutenção de desigualdades socioeconômicas, ainda estamos muito distantes da democratização do acesso à internet e outras tecnologias. Também junto com esse momento de confinamento tivemos um aumento considerável de violência domestica em todo Brasil.

     Parece que, o advento do Covid-19 não apenas acentuou as desigualdades, mas também as evidenciou. A tríade opressão que estrutura a sociedade brasileira (raça, classe e gênero) nunca ficou tão desnuda como nessa pandemia. Entretanto, é notadamente nesse cenário de aprofundamento da crise sistêmica, que as agendas de séculos, como por exemplo, o direito a saneamento básico e o direito ao acesso água, emergem com mais força na consciência coletiva, sobretudo nas comunidades e periferias de Recife. Nesse sentido, desnudada as estruturas genocidas do Estado brasileiro e para garantir o mínimo existencial e a vida dos grupos sócio econômicos mais vulneráveis, surge nas próprias comunidades e periferias ações emergenciais de redução de danos do Covid-19.

     Grande parte das frentes comunitárias que estão atuando com as ações emergenciais, são organizações que já atuam cotidianamente em suas comunidades. De modo que, as ações emergenciais adotadas pelas organizações no atual cenário pandêmico, não são assistencialistas e nem funcionam como obras de caridade, mas se revestem de um caráter político e social para garantir o mínimo existencial dos moradores das periferias, pretas e pretos em sua grande maioria. Nessa perspectiva de garantir a dignidade humana, à vida e o mínimo existencial, em tempos de potencialização das desigualdades socioeconômicos, juntos com outras frentes comunitárias, o Centro Comunitário Mário Andrade no Ibura de baixo tem atuado com os moradores locais para minimizar os danos causados pelo Covid-19. O Centro é uma organização comunitária coordenada por uma mulher negra Joelma Andrade Lima, é uma organização que surge da luta contra o genocídio do povo negro. Dando continuidade nesse intento, essa organização tem se colado nas trincheiras pela preservação da vida dos moradores do ibura de baixo. No cenário de pandemia, tem realizado de forma cooperativa e horizontal com a própria comunidade, entrega de alimentos, kits de segurança pessoal e de higiene, fazendo acompanhamento das famílias e estimulando o isolamento social se possível para reduzir o contágio.  

     Nesse mesmo sentido, o Espaço Solidário Gris, coordenado por outra mulher negra, Joyce Paixão, também tem sido uma organização vetor na preservação da vida nas periferias nesse cenário.  Atendendo além das comunidades adjacentes ao bairro da várzea, tem atuado como um grande braço de apoio a outras frentes, partilhando as doações de alimentos e material de higiene com outras organizações.

     Além desses dois espaços, há vários outras organizações espalhados nas periferias surgindo na mesma perspectiva de garantia da vida e do mínimo existencial. Saindo das periferias urbanas e periurbanas de Pernambuco, na zona rural, a Associação de Educação, Agroecologia, Arte e Cultura Sítio Agatha que já realiza trabalhos contínuos na defesa dos direitos humanos dos trabalhadores rurais, nessa pandemia têm atuado com comunicação popular e medidas para garantir o acesso dos trabalhadores rurais aos meios adequados de prevenção ao Covid-19. O Espaço do Sítio Agatha também é liderado por mulheres negras, Luiza Cavalcante e Nizinga Cavalcante.

     Numa conjuntura de necropolítica do Estado acentuada pela pandemia, esses exemplos de organizações comunitárias autônomas, que trabalham em rede, com práticas autogestionadas, lideradas por mulheres negras e pobres, evidenciam a capacidade criativa de vida dos grupos vulneráveis e apontam para práticas libertadoras gestadas em maioria por sujeitos atravessados pela tríade de opressão raça, classe e gênero. E nessa linha tênue entre a vida e da morte, em que, sobretudo o racismo, é a fiel da balança que define a continuidade da vida das pessoas na sociedade brasileira, o advento do Covid-19 e seu avanço para periferias, para além de desnudar e aumentar o fosso das desigualdades, nesse cenário com reforço e o protagonismo das frentes comunitárias, sobretudo as lideradas por mulheres negras, nos reposiciona no fazer história. Dito isto, a periferia e nós pretos e pretas, sempre fizemos história. E nessa travessia para redução dos danos do Covid-19, fica evidente que  nós pretos e pretas e nossas comunidades, fomos e somos um povo que se autoliberta. 

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Jacqueline Martins Alves Correia (31), mulher negra, ativista pelos direitos humanos e militante antirracista. Formada em Direito (2016) pela Faculdade de Olinda-FOCCA, é mestranda em Educação, Culturas e Identidades pela UFRPE. Atua como militante no Centro Comunitário Mário Andrade e na Associação de Educação, Agroecologia, Cultura e Arte Sítio Agatha. Atuou no Coletivo de Juristas Negras de Pernambuco na frente de educação popular e assistência judicial aos povos de religião de matriz africana e afro indígena. Tem na sua agenda à luta contra o genocídio do povo negro como prioridade de ações políticas e sociais.


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