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Produções do Edital: Redução de Danos e Democracia - Eveline Duarte

04/07/2022 12:00

Escola Livre de Redução de Danos

Produções do Edital ELRD,

Produções do Edital: Redução de Danos e Democracia - Eveline Duarte

Eveline Duarte, mulher preta, periférica, familiar de pessoa pessoa privada de liberdade, sobrevivente de situação de rua, usuária de substâncias considerada...

Eveline Duarte, mulher preta, periférica, familiar de pessoa pessoa privada de liberdade, sobrevivente de situação de rua, usuária de substâncias consideradas psicoativas, articuladora da Agenda Nacional pelo Desencarceramento no DF representada pela Frente Distrital pelo Desencarceramento, articuladora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas - RENFA/DF, integrante e também cuidada da OSC Tulipas no Cerrado rede de redução de danos e de Profissionais do Sexo do DF e Entorno, fundadora do Coletivo Rosas no Deserto de familiares, egresses e amigas/os/es do Sistema Prisional DF e está estudante de Direito na Faculdade Projeção DF.

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     Nunca pensei que seria uma pessoa que seria usuária de substâncias psicoativas consideradas ilícitas, sempre fui ensinada que essas são  drogas que matam as pessoas e que as torna incapazes de terem uma vida normal, autonomia, domínio de seus corpos de suas atitudes e as animaliza, assim eu me lembro de várias falas, nas conversas com minha família, bem como  nas abordagens que eram feitas nas escolas que estudei e levavam aqueles programas de combate e prevenção ao uso de drogas que hoje vejo e sei que são totalmente ineficazes e que não tratam minimamente com a devida verdade e seriedade um assunto tão importante, as mídias, a sociedade como um todo e o Estado genocida que escolhe estrategicamente manter a punição como fator disciplinador e na condição de pessoa usuárias dessas substâncias e nos reduz a seres indesejáveis, por fim no decorrer de uma trajetória de vida com muitas dores, rejeição, abusos e violências as quais sempre recalcadas  eu cheguei lá, no “Depósito dos inumanos” e ouvi de alguém que deveria ter me protegido de tantas coisas e simplesmente não fez o mínimo, mas naquele momento usou o seu lugar em minha vida para dispensar uma fala que me marcaria até o poço: Você se tornou um rato!

     Nunca me esqueci e nunca esquecerei o olhar, o tom de desprezo que me foram dados naquele dia. Tenho hoje o escurecimento de que a ignorância total sobre as substâncias, a intoxicação moral e a hipocrisia, permitiram que eu ali, no poço fosse abandonada, estuprada coletivamente, deixando cicatrizes em meu corpo e em minha alma que foi dada como perdida. Eu acreditei naquilo, e não conseguia entender por exemplo que o álcool é pior do que a substância vulgarmente conhecida como “crack” bem como essa também é derivada da cocaína e por conta da proibição chega para nós numa qualidade piorada, cheia de lixo químico.

     Na farsa da luta contra as drogas que nos é imposta para que possamos ser considerados dignos de vida e sermos reinserides no que a estrutura considera normal, vivemos a tortura forjada de saúde, a substituição pela dependência clínica e imposição religiosa que acontece nas comunidades terapêuticas que visam nas corpas de pessoas usuárias tão somente o capitalismo que é fomentado pela exploração da despersonificação imposta a nós. Eu entendi que as drogas consideradas ilícitas não é o que mata, mas sim ignorância e na falaciosidade da mentira da “Guerra às Drogas" o que existe é uma guerra declarada a corpas pretes e pobres, uma estrutura racista e que usa o proibicionismo não só para controlar mas também continuar nos aniquilando. Na rua somos expostes a toda violência programada e sobrevivi pela compaixão dos meus iguais, os que resistem contrariando as estatísticas e “reexistem” levando a Redução de Danos, que precisa  urgente ser reconhecida e implementada como Política Pública para nós enquanto seres humanos que devem poder ter dignidade humana na condição de pessoa usuária de substâncias psicoativas, assim poderemos vislumbrar um mundo onde os cárceres, manicômios e as amarras do racismo perpetuado nesta atual Política de Drogas que se resume a uma Política de Morte e a  Redução de Danos que antes de olhar para substância olha para nós seres humanos por trás dela seja ferramenta para possamos ter vida e não somente sobreviver excluídes e recluses.

     O universo ouviu minhas preces e me levou para um lugar que chamo de “cura da alma”. Lá no buraco do Setor Comercial aqui em Brasília eu havia desenvolvido resistência a luz, por passar tanto tempo na escuridão, durante um tempo, era difícil sair daquele reduto, a cada tentativa, dor, vertigem e ânsia, então voltava para o estacionamento rotativo do setor comercial sul, conhecido vulgarmente como "buraco de rato". A sociedade zumbifica o usuário da cocaína fumável (crack) , não é só a substância em si, pois posso falar de cátedra sobre o uso da substância e a complexidade do seu vício, existe toda uma ambientação sobre essa, fazendo o vício não só fisiológico, mas também o vício da atmosfera do uso, que faz todo o contexto do crack. Essa semana ao falar com um grande amigo também usuário de cocaína fumável (Crack), este me disse algo, que parece que me escureceu ainda mais o entendimento sobre esse lugar de “inexistência imposta” mas que eu nunca havia observado com mais atenção, que às demais substância não fazem dos centros das cidades os seus abrigos de dor, o crack leva seus usuários de forma inconsciente para o meio, não existe camuflagem, como as demais drogas que tendem a parecer menos pior, quando na verdade a atmosfera proposta para as outras substâncias é diferente, não "zumbifica" o usuário, não marginaliza e criminaliza como é feito com o crack. Será que querem ser olhades de qualquer forma que seja? É o que consideram feio e tentam esconder mas que insiste em ressurgir se auto regurgitar? Escrevendo este texto com o coração tão apertado por aqueles que ainda estão lá, mas por mim que todos os dias luto para que o sistema que insiste em me matar e me devolver para rua, com os rótulos que o preconceito impõe, mas não dá para contar tudo agora, sobre toda violência que permitiram que eu vivesse e que são as mesmas que meus irmanes são obrigades a passar: Espancamentos, torturas, fome, frio, nojo social, desatenção, esquecimento, falta de acesso aos mínimos direitos humanos que na Lei está como garantia fundamental a TODES mas na prática nunca chegou a muites de nós. 

     Preciso falar do dia que a Redução de Danos entrou em minha vida  e marcou profundamente, eu ainda não  a entendia como Redução de Danos mas foi exatamente o que aconteceu, o dia que eu voltei a enxergar cor no mundo, as cores que minhas íris não captavam mais. Eu conheci meu companheiro que é um sobrevivente de situação de rua e cárcere a vida toda, chegou ali com 9 anos de idade, ele me levou para seu barraquinho era um vestiário desportivo, ali ele me ajudou a entender primeiro que o álcool era muito pior que todas aquelas substâncias que estão criminalizadas e aí com muita dificuldade eu conseguir retirar o álcool e aos poucos fui sendo condicionada ao hábito de não fazer uso da substância crack durante o dia, eu tinha certeza que toda noite eu poderia usar na segurança de nosso barraquinho que mesmo não sendo uma casa para a sociedade era o nosso lar, em pouco tempo as pessoas acreditavam que eu não usava mais, pois associam o uso a sujeira e abandono, ali nascia o início da quebra de um paradigma, ali eu segui sem ser taxada de doente, sem ser interna e violada e chegou inclusive ter dias que pude escolher que não iria usar.

     Eu Havia ido dormir cedo eu estava cansada a abstinência naquele dia veio forte demais, dor, desespero, depois crise de choro e vergonha, enfim o sono consolador depois da luta que travava naqueles meses todos os dias contra a recaída, era um banheiro, um vestiário desportivo, mas era meu lar também naquele momento, tínhamos uma cama, maravilhosa se comparada ao cimento do viaduto, era limpo nosso lar...

     Nós ganhamos um sofá, improvisamos uma cozinha e também um oratório. Meu esposo, naquela época meu companheiro, dormia cedo, sempre estava ao meu lado, cuidando, vigiando, como ele dizia: - Ei menina, como vai viver na rua se acontecer algo comigo meu pai? não sabe acender uma fogueira. Ele ria, mas era um riso carregado de preocupação, por isso fazia tudo para me deixar o menos possível só.

     Na manhã seguinte o sol ainda não havia nascido por inteiro, eu me dei conta que meu amor não estava ao meu lado, eu o ouvi chamar: Vivi amor, venha cá. Eu retruquei, murmurei, estava frio. Meu bem insistiu , enfim levantei, enrolada na nossa coberta vermelha xadrez, e fui em direção a porta do nosso lar, distraída meus olhos buscavam meu esposo, mas antes me deparei com as cores de um amanhecer que de tão belas me deixaram ali emudecida, parada, como num slow motion, o tempo desacelerou, e quando vi, as lágrimas escorriam descontroladas, era um choro libertador, via as cores quentes, não o cinza que preenchia minha visão de tudo, ouvi e vi meu amor encostado nas grades da quadra olhando fascinado aquela imagem, e ele sorrindo disse: Viu meu bem? todos os dias acontece este milagre, na rua sempre vejo esse milagre e me sinto vivo. 

     Naquele momento caminhei até o mar, meu velho mar o mazinho, meu amigo e companheiro, o abracei e ficamos esperando até o nascer total do sol. Ali, houve o acontecimento de dois milagres, digo milagres, pois há certeza da condução de um poder superior por mim buscado, com meu esforço, que incutiu um amor tão grande pela vida, eu quis e quero viver. Dois milagres, as cores tão majestosas e a respiração, que há muito a sensação de sufocamento, uma das sentenças que me foram impostas, ali eu também percebi, eu respirava em paz e eu tive uma nova certeza que mesmo fazendo o uso da substância eu era um ser humano, com autonomia, com vida pulsando e com amor ao próximo, meu povo da rua. Naquele lugar, eu vivi a paz, não digo da miséria e da dificuldade, mas a paz de não ser julgada, naquele lugar, eu ouvi histórias contadas pelo meu esposo, sobre o povo da rua, sobre as infinitas existências extraordinárias que são apagadas pela violência do Estado, sobre o não ter  mas se agarrar no desejo de viver e a esperança surreal que tem o nosso povo.

     

Se não tivessem sequestrado a minha humanidade, quantos danos teriam reduzido em minha vida? Sigo e seguirei com a certeza da Redução de Danos para que possamos cuidar e garantir dignidade humana para todes nós usuários de substâncias consideradas ilícitas, todos os dias sequestrados por essa estrutura punitivista e proibicionista.

 

Ubuntu!

 

"Falo do enfermo (irmão) falo do são (então) Falo da rua que pra esse louco mundão Que o caminho da cura pode ser a doença Que o caminho do perdão às vezes é a sentença"( Racionais MC's)


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